3 de fev. de 2010

Recentemente vi por acaso uma ilustração que chamou minha atenção logo de cara, que acabei postando no blog, vocês podem ver logo abaixo a figura da garotinha com a cabeça na mão. Me encantei com a riqueza de detalhes e os traços sombrios e singelos. Fui atrás e descobri que eram de autoria do ilustrador Mark Ryden.

Ele é reconhecido mundialmente e já ilustrou capas de disco de diversos musicos, desde Dangerous, do Michael Jackson e o disco do Red Hot Chili Peppers, "One Hot Minute".

Pesquisando sobre o cara, seus desenhos retratam uma combinação de garotinhas, carne, numerologia, simbologia católica e budista, achei simplesmente fascinante! Ryden também é influenciado pelas artes do filme Alice no país das maravilhas (talvez fator maior que me encantou). Enfim, quem quiser conhecer um pouco mais da arte deste ilustrador acesse : Mark Ryden

Mas também vou postar alguns trabalhos dele aqui.









Dentre todas as Almas já criadas -
Uma - foi minha escolha -
Quando Alma e Essência - se esvaírem -
E a Mentira - se for -

Quando o que é - e o que já foi - ao lado -
Intrínsecos - ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia - escoar -

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina - fundir-se -
Eis - entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!

Emily Dickinson
Chuva forte caindo

- O que você espera?

- Que a chuva passe

-Fora isso, porque não tenta cobrir-se com algo?

- Espero que a chuva passe

- E você, o que espera?

- Também espero que a chuva passe, mas não apenas isso.

- O que você espera além do óbvio?

- Nada, além do inesperado.


Camila Karina


2 de fev. de 2010



"...Todos temos nosso cães ladrando no portão..."


Friedrich Nietzsche
— Você existe mesmo?
— Ora, não lembra o que disse o cardeal Ratzinger? “Para os fiéis cristãos, o Diabo é uma presença misteriosa, mas real, pessoal e não-simbólica”.
— Talvez concorde com o último predicado.
— Por quê? – perguntou o Diabo.
— Porque símbolo, reza a etimologia da palavra grega, é o que une, agrega. O antônimo é diabolos, o que desagrega. Desculpe a minha falta de fé.
— Em mim ou no cardeal?
— Nos dois. Na ausência de uma boa dúvida cartesiana, fico com Spinoza: se você, contra a vontade de Deus, induz os seres humanos a praticar o mal, e ainda nos condena à danação eterna, que diabos de deus é esse que o deixa impune e ainda permite que sejamos punidos por você? Afinal, você é inimigo ou cúmplice de Deus?
— Não esqueça, fui criado por Deus.
— Não como demônio, mas como anjo - observei.
— Sim, agora sou um anjo decaído, pois fiz com que a primeira criatura, Adão, se voltasse contra o Criador. Adão tornou-se cativo de meu reino. Jesus teve que morrer na cruz para resgatá-lo.
— Não me venha com esse papo de Mel Gibson - reagi. — Você bem sabe que Deus tinha o poder de arrancar Adão do reino do mal sem precisar mandar o seu Filho e deixar que sofresse tanto. Qual pai se compraz com o sofrimento do filho? Jesus veio nos ensinar o amor como prática de justiça. E foi vítima da injustiça estrutural que predominava em sua época, como ainda hoje.
— Deus tentou me enganar – queixou-se o Diabo. — Manteve em segredo o nascimento de Jesus. Mas à medida em que o Filho crescia, fui percebendo quão perfeito ele era. Quis, portanto, tê-lo ao meu lado.
— Você tentou seduzi-lo três vezes e quebrou a cara. Prometeu-lhe os reinos deste mundo, mas ele preferiu o de Deus; mandou que transformasse pedras em pães, mas ele não acedeu à primazia dos sentidos; quis vê-lo voar como os anjos, atirando-se do pináculo do Templo, mas ele optou pelas vias ordinárias, e não pelos efeitos extraordinários.
— Admito que não consegui dobrá-lo aos meus caprichos. Mas desencadeei as forças do mal contra ele, até que morresse na cruz.
— Mas ele ressuscitou, venceu o mal – frisei.
— Sim, Deus me enganou.
— Como assim?
— O homem Jesus era a isca na qual Deus escondeu o anzol da divindade de Cristo. Ao perceber isso, era tarde demais.
— Por que Deus, em vez de sacrificar seu Filho na cruz, não matou você?
— Isso é um segredo entre mim e Deus.
— Não posso acreditar que Deus comparta qualquer coisa com você, como as almas de seus filhos e filhas, e nem mesmo a existência. Ou acha que vou acreditar que a falta de Adão tenha sido mais grave que o assassinato do Filho do Homem na cruz?
— Eu sou a contradição de Deus – vangloriou-se o Diabo.
— Você já leu Robinson Crusoé? Lembra da “catequese” que ele tentou impingir em Sexta-Feira? Este indagou: “Se você diz que Deus é tão forte, tão grande, ele não é mais forte e mais poderoso que o Diabo?” Crusoé confirmou. Então Sexta-Feira concluiu: “Por que Deus não mata o Diabo para ele não fazer mais maldade?” Embaraçado, Crusoé fingiu que não ouviu.
— O que você responderia? – indagou o Diabo.
— Diria que Deus não pode matar o que não criou. Você é uma criação das religiões arcaicas que dividiam o mundo entre as forças do bem e do mal, o que a Bíblia rejeita, embora alguns políticos atuais queiram justificar seus ímpetos bélicos e suas ambições imperialistas na base desse dualismo.
— Mas eu figuro na Bíblia! – exaltou-se ele.
— O que não significa que de fato exista, assim como Adão e Eva também estão citados lá e nunca existiram. Adão significa “terra” e Eva, “vida”. A Bíblia, como um livro em linguagem popular, antropomorfiza conceitos abstratos. Ou você acha que Elias subiu ao céu num carro de fogo e que existe o dragão citado no Apocalipse?
— Então você não crê na minha existência? Como explica tanto mal no mundo?
— Você mente tanto e tão bem que até faz a gente tender a acreditar que existe. O mal é uma decorrência da liberdade humana. Eternizar o castigo é eternizar o mal. Somos chamados a responder livremente ao amor de Deus. E onde há amor, há liberdade, inclusive de se fechar a ele.
— E no inferno, você acredita?
— Fico com Dostoievski, “o inferno é a incapacidade de não poder mais amar”. Borges frisa que “é uma irreligiosidade” crer no inferno.
— Mas eu sou real – insistiu o Diabo.
— Deus não tem concorrente – rebati. — Nós inventamos você para nos eximir de nossas responsabilidades e culpas, por nem sempre corresponder ao que Deus espera de nós.


Frei Betto

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa

de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa ë fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.

Ferreira Gullar

1 de fev. de 2010

Amigo meu surpreendeu um ladrão em casa. Desceu pé ante pé a escada e acendeu a luz da sala, rapidamente. O ladrão, ao ver a luz acesa, saiu correndo. Passou pela porta, saltou um muro, ganhou a rua. Meu amigo correu atrás do ladrão até a porta da rua e, para garantir-se da fuga do ladrão, deu um tiro para o ar. Seu erro. O ladrão parou de correr subitamente e, deitando ódio pelas narinas, voltou como um raio em direção ao meu amigo, disparando também o seu revólver, e gritando com fúria: "Tiro não, seu cachorro! Tiro não!".

Trancando-se em casa e dominado pelo terror, meu amigo ficou refletindo que devia ter ferido algum ponto fundamental da ética larápia. Sentou-se à máquina. e fez então um código de como tratar ladrões. Ei-lo:


QUANDO, COMO E POR QUE SE DEVE ATIRAR NUM LADRÃO


Atire imediatamente:

1) Se for um ladrão que fala à maneira da literatura policial corrente. 2) Se ele, em vez de correr pra lá, corre pra cá: 3) Se ele provar que é vítima de uma estrutura social mal formulada e que não está fazendo mais do que lançar mão de algumas coisas que a sociedade lhe deve por tê-lo posto no mundo. 4) Se ele não parece disposto a despir sua melhor camisa esporte. 5) Se sua esposa ou filha achar que ele é um amor de ladrãozinho.


Evite atirar:

1) Quando o ladrão se encaminha para o quarto de seu tio rico, cujo único sobrinho é você. Nesse caso, evidentemente, cabe a seu tio o direito de atirar primeiro. É preferível deixar o ladrão um tanto chocado com a nossa não interferência, do que desagradar nosso tio quando é seu o legítimo direito de abater o larápio. Isso poderia levá-lo a um grande desgosto e, portanto, a nos deserdar. O fato de não interferirmos entre ele e o ladrão; muito ao contrário. 2) Se o nosso Terra Nova conseguiu agarrar o ladrão pelo gogó. Nesse caso, com a pontaria que temos, poderíamos ferir o cão e deixar solto o ladrão. E se você já viu um cão com raiva, fácil lhe será imaginar um ladrão hidrófobo. 3) Este ponto redunda no anterior. Você nunca deve disparar quando não for capaz de acertar um mosquito a cinqüenta metros. Os ladrões em geral acertam no olho esquerdo de pulgas a duas milhas de distância. (Medida inglesa). 4) Se sua esposa é uma Assistente Social. Ela pode aplicar sobre ele suas lições de "como reajustar o indivíduo à sociedade". 5) Se você está a beira da falência. Um ladrãozinho inopinado explica muito fundo ausente.


Peça ao ladrão para atirar antes:

1) Se você há muito tempo não tira férias. 2) Se você tem um ótimo seguro contra acidentes. Neste caso você pode até escolher o lugar do corpo em que o ladrão deve atirar, mediante uma comissão paga adiantadamente.

Além disso previne-se também que para entrar em luta com um ladrão não é necessário convidá-lo a escolher as armas antecipadamente; já que um ladrão prefere normalmente as que tem à mão. Outrossim não se deve dirigir a palavra a um gatuno antes de lhe apontar o revólver. Ele pode ficar emocionado se você lhe falar sem ser apresentado e sentir-se na obrigação de lhe dar uma salva de tiros. A natureza dos ladrões, sabem os entendidos, é muito reclusa.

Millôr Fernandes

*Texto extraído do livro "Lições de um Ignorante", José Álvaro, Editor – Rio de Janeiro, 1967, pág. 119.

*Ilustrações: Maxx

Pensaram por aqui

 

Copyright 2010 Paralelos do Cotidiano.

Theme by WordpressCenter.com.
Blogger Template by Beta Templates.