Vidros quebrados
Janelas abertas
Portas quebradas
Sangue nas mãos
Sorriso no rosto
Livre caminhar
É o poder da fúria
Prazer em conhece-lo
Um dia, para todos


Camila Karina

Ilustração de Mark Ryden

Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou seja má - e, se nunca é inteiramente boa, muitas vezes não é inteiramente má - , sim, fazer uma coisa completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer sentimento. É como um filho: é imperfeita como todo o ente humano, mas é nossa como os filhos são.

E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu, que não ouso escrever mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também. Mais valeram pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma que se reconhece incapa de agir.


Bernardo Soares

Leitores que acompanham este blog, publicamente e anonimamente, resolvi divulgar um pouco do meu trabalho fotográfico aqui.

No caso, ensaios fotográficos artísticos (books) de vários âmbitos, mas repito, são artisticos e empiricos (cenário natural), enfim, quem tiver interesse, manda um email : camila.karina@gmail.com , que explico com mais detalhes, aproveito também para apresentar minha assinatura (logomarca) nas fotografias.

Ah, e gostaria de agradecer também a minha amiga Danúbia Vilhena pela logomarca de presente! Ela trabalha com Design, quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho dela, acesse o Casúlo de Idéias

Abraço!

Camila Karina

(...) Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão.

Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras.

Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.

Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Crochet das coisas... Intervalo... Nada...

De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sofrego de me entreter... Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo... Sim, crochet..."


Bernardo Soares ( ou Fernando Pessoa, inconfundivel)

07/02/2010

Choques

Que flechas são estas em minha direção, encontrando com meus músculos e sangue à queima roupa?
Que pedras são estas em meus ouvidos que pesam nos tímpanos e impedem de ouvir o tom da voz que me agrada?
Que estacas são estas que cravam nos pés, esmagando os dedos, causando formigamentos que espetam minha pele como agulhas?
Murros de sílabas, marcas felinas de patas
Corro para me esconder? Enfrento para entender? Aceito para aprender?
Meu corpo e mente mostram-se doloridos de tantos choques, de várias direções.
Eis a luta, a batalha para adaptação.
Ao abrir os olhos, as pupílas denunciam que não passam de óticas distintas
Uma visão atenta
Outra visão filtrada
Por dentro cada fera tem seu instinto defensivo
Mas cada fera também procura um abrigo.


Camila Karina

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

Dylan Marlais Thomas

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