31 de mai de 2010

As pequenas raspas
Nesta couraça
Desgastam unhas, dedos
Força, medos
Nas mãos os vestígios
Pequenas confissões
Fisgadas
Nos castigos
As Punições
Do bem querer
ao retroceder
Não foi por mal
Exceder o sinal
Dos sabores e temperanças
O melhor é a relevância
É real
não justifica
Há excesso de sal
Mas ir além pela ternura
É normal

Camila Karina

29 de mai de 2010

O que falas é vasto
E se esvai
Sem fronteiras
Sem beiras
Nem eiras
E no peito
Inócuo sentir
Das mãos no vácuo
Juntas
Pelas esperanças, pelas mudanças
Pelas temerárias e impetuosas sementes
Que nascem
Juntas
Das particulas inertes
Carregadas de preces
Semente
Somente
Peço


Camila Karina

27 de mai de 2010

-Todo este vazio que carregas contigo, pode ser exaurido

- Me perdendo em um vão?

-Libertando-se

-De que forma?

-Olhando para o mesmo ponto continuamente.

-Tedioso e sem proveito algum.

-Edificante, eu diria. O mesmo ponto pode se tornar mutável .

-Como?

-Ele pode ser tedioso, como você o limitou. Pode ser o refúgio para a concentração, para a paciência, para disciplina interna, e talvez, para a irritação.

-Então você também concorda que pode irritar?

-O equilibrio das emoções está sujeito a todos os sentimentos, faz parte da máquina giratória que é o ser humano: pura insegurança.

-O que você quer dizer então com : olhar para o mesmo ponto?

-Você é o ponto.

-Sou ponto de que?

-O ponto vazio que pérvia dentro de si mesmo e o ponto mutável que precisa de novos olhares. Todos relutam.

-Estou olhando

-Isso é pura pretensão, a mais sábia pretensão.


Camila Karina

26 de mai de 2010

Desfaça o disfarçe
que não engana
Desanima
Inflamam as retinas
Desça do palco
Acenda as luzes
Hasteie as cortinas
Das brincadeiras sem pretensões
Às marcas felinas
No corpo
Na carne
No sopro
Quais você elimina?
Inicie um novo percurso
Rancor ou benevolência
Qual você mais se aproxima?

Camila Karina

25 de mai de 2010

Amanheço
Estremeço
Presencio
Agradeço
Entristeço
Adormeço
Por um fio
O Fim
Do avesso
Reinicio
Recomeço
Enobreço
Sorrio
Para a vida
ampulheta
Engenhosa
Benquista
Sim

Camila Karina

24 de mai de 2010

Peça tempo
Peça chave
Que desune
E não presume
O inverso
Do universo
do desamparo
É todo seu
Apanhe o momento
Esboce a contento
Improvise laços
Com grandes espaços
Imponha as exigências
Cultive pendências

Camila Karina

23 de mai de 2010

Nestas simplórias medidas
Os limites são meias verdades
De um extremo ao outro
De reticências ao ponto
Nestes conceitos
nada valem as afinidades
Só o que se espera do outro
O que chega parece pouco
O visível é simples
É fátuo
Tem um ilusório domínio de medir
Esta métrica impostora
que nos impede de sentir

Camila Karina

21 de mai de 2010

Estou cheia
Transbordando
Ultrapassada de limites
Em ebulição
Uma efervescência
Estou cheia
Na eminência
Sem fontreiras
Além da borda
É fato
Ninguém me aguenta
Estou cheia
De Amor

Camila Karina

20 de mai de 2010

Uníssono
Um solo
Uma nota sem compasso
A bússola sem direção
Que confude os caminhos
E lhe foge a compreensão
Useiro das lembranças
Inquietude e devaneio
Encontro o medo em tais andanças
Canso e quero recolher
Os pedaços das mudanças
Uma sílaba
Uma nota
Uma canção
A melodia rege os versos
Um descompasso
Solidão

Camila Karina

19 de mai de 2010


"Meus cúmplices" na poesia, quero dividir com vocês uma entrevista que encontrei sobre uma das minhas poetas favoritas : Alice Ruiz.


A poeta Alice Ruiz comenta a relação que mantém com os haicais e lembra do o começo frustrante com as palavras e como desenvolveu o ofício de letrista


Poeta e compositora, Alice Ruiz traz a cifra da arte desde a infância. Apesar do contato inicial com a literatura ter se dado no campo da prosa – escreveu o primeiro conto aos nove anos de idade –, foi pelas tramas da poesia que a artista curitibana teceu sua trajetória literária. Autora de poemas haicais – forma poética de origem japonesa caracterizada pela concisão e objetividade –, Alice enveredou por essa expressão artística elementar quando conheceu o também poeta Paulo Leminski, com quem viria a se casar aos 22 anos.

Com 19 livros publicados, entre poesia, traduções e uma obra infantil, a poeta também tem uma longa carreira como compositora musical. Tendo realizado sua primeira parceria com o marido, Alice já compôs como letrista ao lado de nomes como Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Ceumar, José Miguel Wisnik e Zeca Baleiro. Compositora desde os 26 anos, Alice tem mais de 50 músicas gravadas por parceiros e intérpretes.
Ano passado, a poeta foi agraciada com o prêmio Jabuti de Poesia pelo livro “Dois em Um”, editado pela Iluminuras.

Paralelamente ao trabalho com a literatura e com a música, a artista constantemente é convidada para ministrar oficinas sobre haicais, muitas delas nas unidades do Sesc.

A seguir, Alice conta um pouco de sua experiência, revela como se deu a aproximação com o universo literário, fala sobre o primeiro contato com a poesia haicai, comenta as vicissitudes que diferenciam o ofício do letrista e o do poeta, e descreve, em conversa com a Revista E, o impulso criador que a conduz ao fazer literário: “Eu faço poesia porque ela quer que eu faça, porque ela manda em mim. E eu obedeço. Eu sou apenas um instrumento dela”, confessa.

As primeiras letras

Meu começo de carreira foi meio frustrante. Um dos meus tios, que inclusive tinha nascido no mesmo dia em que eu, era poeta e pintor. Único da família com essa veia artística, ele morreu precocemente, por problemas com o álcool, quando eu tinha apenas dois anos.

Por conta disso, minha família passou a atribuir à arte aquela tragédia. Lembro-me nitidamente da pressão que eles começaram a exercer para que eu me distanciasse dos livros quando perceberam minha inclinação para a literatura. Tanto é que o único livro que tínhamos em casa era a bíblia, livro que eu, por falta de opção e movida por uma sede intensa de leitura, acabei relendo inúmeras vezes.

Essa situação se estendeu até o ginásio, quando descobri a biblioteca do colégio. Aí eu me entreguei finalmente àquela paixão, talvez até um pouco provocada pela proibição. Eu não saía da biblioteca, era uma leitora extremamente ávida. Lembro-me que aos 11 anos ganhei de uma professora um livro de Monteiro Lobato, A Chave do Tamanho [Editora Brasiliense, 1997]; de ali por diante, me enveredei por toda a literatura dele, depois disso, comecei a me interessar por outras coisas, romances...

É interessante que, ao mesmo tempo, minha aproximação com a poesia não tenha sido imediata. Talvez porque a abordagem que tive na escola fosse muito distante da minha realidade de jovem adolescente. Acredito que a poesia esteja muito ligada ao momento. Penso que, para haver empatia, ela precisa dialogar com o real. Então como você pode querer que uma criança ou um adolescente se interesse por uma poesia que não fale com a realidade dele?

Então, justamente por isso, naquela época havia uma relação até paradoxal entre mim e esse gênero literário. Eu fazia poesia, mas achava que não gostava dela. E ocorre que, ao mesmo tempo, nunca consegui parar de escrever, eu escrevia meu diário como todo mundo, só que entre aquelas memórias da adolescência já esboçava uns poemas. Enfim, eu tinha uma necessidade muito grande de me expressar. No fundo, acho que de certa forma todo mundo faz isso, mas aquele que é escritor mesmo continua e não para nunca.

Gênese poética

Esse “dar-se conta” da minha inclinação para a poesia começou a ganhar força quando passei a ter contato com escritores de Curitiba, como o Wilson Bueno e o Jamil Snege. Comecei a mostrar aos poucos as coisas que eu escrevia, sempre ligadas à natureza.

Muito tempo depois fui conhecer o haicai, isso foi aos 22 anos, quando o Paulo [Leminski] me apresentou essa forma de poesia. Eu fiquei besta, porque já fazia poemas curtos sobre a natureza, não dentro das regras nipônicas nem permeados por aqueles elementos estilísticos específicos, mas o curioso é que eu já tinha essa inclinação.

O embrião estava lá, mas eu só me dei conta mesmo quando o Paulo me apresentou. Foi engraçado quando eu mostrei a ele os poemas e ele disse: “Nossa, você faz haicai!”. E eu pensando: “Não faço a menor ideia do que é haicai!”. Mas foi aí que eu entrei de cabeça e isso acabou se transformando numa feliz coincidência.


Verso e música
O mesmo se deu em relação à música. Acho que a letrista em mim nasceu por causa do rock, foi na minha geração que a coisa estourou. Por curtir, eu ficava tentando traduzir as canções e quando meu inglês não dava conta eu inventava. Mas fazia isso considerando os elementos característicos de uma letra musical, eu inventava dentro da métrica, com a rima, com a tônica certa. De modo que, inconscientemente, já estava praticando o ofício de letrista desde aquela época. Só não tinha dimensão daquilo.

E é justamente por isso que eu faço questão de distinguir muito bem a letra musical de um poema. São manifestações artísticas diferentes. No meu processo de criação, percebo que a letra é mais provocada, ou por parceiros que me dão a música para pôr letra ou por circunstância mesmo de estar junto a eles. É uma coisa muitas vezes feita a dois. Então tem uma provocação que vem de fora.

“(...) nunca consegui parar de escrever, escrevia meu diário como todo mundo, só que entre aquelas memórias da adolescência já esboçava uns poemas. No fundo, todo mundo faz isso, mas aquele que é escritor, mesmo, continua e não para nunca”

Já o haicai é um estado muito especial de desapego de mim mesma, um exercício de distanciamento para fazer parte do todo. Percebo que a poesia, por fim, é o que dá muito mais trabalho, um trabalho de leitura, um trabalho intenso de tentar uma universalidade cada vez maior, de expressar o que interessa ao maior número de pessoas.

Aliás, acredito que essa é a mais sofrida das criações, não pelo momento do fazer poético em si, mas por tudo que está por trás de um poema finalizado. Às vezes passo anos gestando um poema até que ele nasça. De um modo geral, eu tenho uma relação muito intensa com as palavras, eu as vejo, não apenas ouço. Alguém fala uma coisa e eu já estou jogando com elas, fazendo trocadilhos, vendo as aliterações que têm ali dentro. Vejo as palavras e penso que esse ensinamento me foi dado pela poesia.

Arte marginal

Penso que das artes a que tem menos status é a literatura, porque ela lida com menos dinheiro. O cinema trabalha com ?várias linguagens, as artes plásticas se revelam nas exposições, o músico tem o palco como espaço de expressão. Já a literatura é um universo menos glamouroso e, consequentemente, tem menos status.
Ocorre justamente que, dentro da literatura, o mais pobre dos gêneros é a poesia. Tanto que circula a lenda de que ela não vende. Isso não é verdade. Mas admito que talvez ela venda menos do que prosa, porque a prosa é mais digerível. Em seu ofício o poeta geralmente mexe com questões tão íntimas e pessoais que é quase como fazer terapia sem terapeuta. De modo que quem não está muito disposto ou quem vê literatura como entretenimento definitivamente não vai escolher poesia.

E nesse contexto é interessante observar como dentro da poesia a mais pobre de todas as formas é o haicai, porque nem é ocidental. Somado a isso, seu tema, a natureza, também é de uma simplicidade tocante e difícil de atingir. É uma forma para a qual ainda não há muita alfabetização no Ocidente. Mas, ao mesmo tempo, é impressionante o número de pessoas que praticam haicai no Brasil.

Independentemente do status que ele ocupe no contexto literário, quando penso em minha arte não a vejo com a preocupação de ocupar um espaço na cultura. Eu faço poesia porque ela quer que eu faça, porque ela manda em mim. E eu obedeço. Eu sou apenas um instrumento dela.

Fonte: Portal Sesc SP
Ao se deparar com a verdade sobre si mesmo
O formigar das pernas, o redemoinho interno
Se dispersam
São os sintomas que independem de tempo
O reflexo de um futuro, que te força a descer do muro
Pondera as digressões
Se refugia dos empurrões
Dos medos não
Nem do convencimento
Não precisa ficar
Não precisa sair
Não precisa esperar
Não precisa fugir
Não adianta evitar
A verdade sempre te encontra
A passos lentos
Atravessa os tempos
Do talvez e o suposto
Não desvie do rumo
Sinta-se disposto

Camila Karina

17 de mai de 2010

O tom da voz
Que ecoa pelos poros
Como ventos leves
Que passam, desenham
Arrepios, pêlos
Poros
Brilhos
Olhos
Profundos
Nossos
Mergulhos
Encontros
Num suspiro
O Sentir (dos)
Poros (de)
Olhares
Similares
Que se encontram
Respiro
Nossos oléos
Nas essencias
Do perfume
Na fragância do querer
Dos olhares, um
Milagre
Renascer

Camila Karina

16 de mai de 2010

Neste enredo
Você é o herói
Você é o vilão
Você inicia
E termina a confusão
Salva e aniquila
Esquece a razão
Não convém digladiar
Com este ser
Que também se resigna
Não espere
Um defensor para lhe salvar
Este enredo não pára
Continua a girar
O ciclo de personangens não descansa
Diante de olhares
Você é herói
Você é vilão
É Mutável
Remediável
Qualquer opinião


Camila Karina

14 de mai de 2010

A cegueira que domina
Não clareia
Atrasa, bloqueia
As mudanças, os embalos
Nos espaços, abomina
Seu cordão
Na pressão
Todo fato
Tem sua sina
Os sentidos, a visão
Pele, tato, não fascina
Que males curar?
Que artes usar?
Que tempo gastar?
Os escuros
As sensações
A ocasião
Nenhuma resposta é suficiente
diante da limitação

Camila Karina

13 de mai de 2010

Brutus seres
Que se fitam, sem quereres
Apenas com amargura, sem prazeres
Brutus seres
Que desmerecem
Os anseios, os desejos
Não se esquecem
Remoem raivosos enredos
Brutus seres
Nós
Um todo
Eu, você e ainda, eles


Camila Karina

12 de mai de 2010

Campo Restrito
Quem me toma por
são
nunca me vê por
inteiro


Paulo Leminski

11 de mai de 2010


Vim pelo caminho díficil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.


Paulo Leminski


9 de mai de 2010

Um ponto
Sem nó
Ninguem oferece
sem interesse
Um nó
(o) cego
Ninguém esquece
A mim não convence
As cordas entrelaçadas começam a mostrar formas
Atadas por quem mostrou a que veio
Amarras, couraças e os maiores receios
Se atam, desmerecem o devaneio
Nas medidas (de)
Forças
Quem amarra (quem dá)
Um ponto
Sem nó
Se perde numa atitude em vão
Um ponto
Sem nó
As vezes peca pela imprecisão


Camila Karina

8 de mai de 2010

As lanças de palavras são jogadas a todo momento
Invisíveis miras, invisíveis acertos
Você nem se dá conta
E não discerne o que não tem concerto
Das feridas ninguém pode se queixar
São consequências do ato impensado
Olhar para trás remete à estátua de sal
Ir em frente e continuar nos compele ao novo final
De tais jornadas árdua missão sem escapar
Eis o dom que não temos de contornar
Mais silêncios (sem vozes)
Menos vozes (ouvintes )
E os olhares (seguintes)
Se proteja mas não cogite se isolar
Desperte a tempo
No momento que a calmaria chegar


Camila Karina

6 de mai de 2010

Encontrem o regente
Desta orquestra que movimenta seus instrumentos
Em declives e alternados tempos
Compassos induzidos, leves, graves, um contra-senso
Encontrem o regente
Que conduz e movimenta pertinente
Idéias, sentimentos
Fatos e punições
Encontrem o regente
Que se esconde
na sinfonia contraditória dos mundos
Responsável pela sincronia
Entre a verdade e o bom senso
Esqueçam o regente
Que não pode tolerar tantas comodidades
Ele apenas representa
A perdida força de vontade


Camila Karina

5 de mai de 2010

Pensamos erroneamente que
Somente a nós
Cabe apontar
Um ponto
No ponto
Que existe o desacordo
Em vários (pro) nomes de tratamento
De nossa desaprovação
As vezes não sabemos olhar
Encontrar
Apontar
Nosso próprio ponto
De análise
Uma conversa particular
E de fato
Existe o ponto
O elo de um encontro
Que nos impusione a mudar

Camila Karina

3 de mai de 2010

São tantas ausências que preenchem este vazio
E esta sede de algo que enobrece
Está por um fio
Num centro, meu centro, que não é só meu
Teu centro, num centro, que não é só teu
Dois mundos, fecundos, no mais tenro apogeu
Se chocam, deslocam, no encontro dos eus
Qual parte?
Qual encaixe?
Que peça se perdeu?
Por dentro
Concentro
Relato o que aconteceu
Das partes
O que me intriga
É não saber quem se escondeu

Camila Karina

2 de mai de 2010

Um passo à frente
E o que me vem à mente são os caminhos
Que a vida pode mostrar
Um passo adiante
E a qualquer instante, tudo pode se rebelar
Evite os estragos
Não faça tantos planos
Impeça passos largos
Encare os estranhos
Vale mais acreditar em si mesmo
Grande feito para se orgulhar
É o único passo
Que se pode dar descalço
E ninguém se machucar

Camila Karina

1 de mai de 2010

Nesta ciranda de idéias e palavras
não sei quais escolher para
traduzir
definir
exprimir
Exatamente tudo o que sinto e penso
Talvez prefira continuar nesta roda
E digo
Nesta ciranda, um pensamento pode se destacar
Será que tudo que vai tem mesmo que voltar?
Mas
Tenho um pensamento que não posso estiguir
Nada permanece parado
Tudo tende sempre a fluir


Camila Karina
Eu vi quando você me viu

Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu

Eu vi quando você me viu
Seus olhos buscaram nos meus
O mesmo pecado febril
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou todo o ar
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu

Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu

Quando você me viu...


Cláudio Lins


Em certos momentos, nos deparamos com situações insalubres e acabamos por “coagir” nossas reações com severidade a certo limite. Uma linha imaginária. Uma situação que me atordoa, às vezes, quando percebo que tais reações delimitadoras e impositivas arrefecem a espontaneidade, as reações extremas, valorizadas apenas quando éramos crianças.

Quer dizer, hoje em dia, não posso afirmar mais isto. Sentada num restaurante, vi uma criança muito entusiasmada com os talheres coloridos da mesa e seu pai, logo em seguida, tomou os talheres da mão da criança e sentenciou: “Sente e coma quieto!”.

Aquilo me feriu. Não entendi muito bem o porquê inicialmente. Nunca passei por tal situação quando criança, aliás, sempre fui muito livre para até mesmo brincar com a comida. Mas, num certo momento, diante de pequenas experiências, fui me tornando mais severa.

Não com os outros, mas comigo mesma. Hoje sei e admito que a televisão teve muita influência nos meus conceitos, além os livros que li e as pessoas com quem conversei. Essa herança emocional compactou alguns pequenos ditados de sobrevivência, em nossa selvagem sociedade.

Nos desenhos, o bonzinho se dá mal, o mais esperto sempre vence. Ou bonzinho sofre um bocado para chegar à vitória. Eu, que acompanhei o Incrível Hulk, e assisti o filme A Mosca, acabo por transcrever aqui minhas lembranças e grandes influências.

Hulk ficava verde quando era provocado. (nunca fiquei verde, só vermelha). A mosca passava por uma transformação dolorida e se tornava horripilante. Mas também assisti à turma do Chaves, com aquele humor meio ácido, no qual a Chiquinha transparecia toda a malícia ingênua de uma criança. É possível entender esse pout-porri?

Neste caso, não existem culpados. Creio que cada um tem seu próprio “manual de sobrevivência", mas me aconselho, e, consequentemente, aconselho a você também. Que tal perder a cabeça, tremer, ter vários nervosorsimos, que variam de síndrome das pernas inquietas ao girar dos dedos polegares, falar sem filtros. Isso por um dia, só para sentir o quão livres não somos, apesar de afirmarem isso? Só não aconselho ter essa reação todos os dias. A sociedade continua sendo selvagem. Podemos ser engolidos ou internados num sanatório.

Camila Karina

Pensaram por aqui

 

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