"A distância é como os ventos: apaga as velas e acende as grandes fogueiras"
Machado de Assis
4 de mar. de 2010
'Viver sem amor por uns tempos é normal. Viver sem amor pra sempre é azar ou incompetência. Só não pode ser uma escolha, nunca. Escolher não amar é suicídio simbólico, é não ter razão pra existir. Não adianta querer compensar com amor pelos amigos, filhos e cachorros, não é com eles que você fica de mãos dadas no cinema.'
Martha Medeiros
Martha Medeiros
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Velimir Khlébnikov
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Velimir Khlébnikov
3 de mar. de 2010
2 de mar. de 2010
Era uma avenida na paisagem dos Evangelhos, bem na esquina do Novo Testamento. E apareceu um camelo cor de avelã, servindo coquetel nas tâmaras dos olhos. Na obstinada giba, uma triste cópia da pirâmide. E o focinho crestado pela iluminação da ribalta sem aplausos do deserto, começou a movimentar-se. E disse :
— Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.
Veio um boi. Um boi que segundo o Dicionário de Caldas Aulete "serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem". Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a .aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:
— O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai... e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que eu tinha de meu: meu pobre alento.
Veio uma cabra montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:
— Eu lhe dei do leite de meu filho.
Veio, depois, uma ovelha, macia como uma reza de criança. No perfil trácio trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse :
— Nada lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-lhe muito pouco: dei-lhe apenas meu calor.
Veio um jumento sisudo e muito percorrido., desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento — muito velho e usado — que conhece muito bem a História:
— Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.
Veio o peixe e disse :
- Eu saltei para o barco de Pedro. Eu lhe dei a fé.
Veio o grão de trigo e falou:
— Eu me multipliquei quando Ele m'o pediu. Dei-lhe a ceia.
Veio a água ingênua e disse :
— Eu me transformei em vinho. Dei-lhe meu sangue.
E veio o homem. O homem sábio — o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:
— Eu lhe dei a cruz.
Osvaldo Molles
— Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.
Veio um boi. Um boi que segundo o Dicionário de Caldas Aulete "serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem". Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a .aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:
— O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai... e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que eu tinha de meu: meu pobre alento.
Veio uma cabra montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:
— Eu lhe dei do leite de meu filho.
Veio, depois, uma ovelha, macia como uma reza de criança. No perfil trácio trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse :
— Nada lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-lhe muito pouco: dei-lhe apenas meu calor.
Veio um jumento sisudo e muito percorrido., desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento — muito velho e usado — que conhece muito bem a História:
— Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.
Veio o peixe e disse :
- Eu saltei para o barco de Pedro. Eu lhe dei a fé.
Veio o grão de trigo e falou:
— Eu me multipliquei quando Ele m'o pediu. Dei-lhe a ceia.
Veio a água ingênua e disse :
— Eu me transformei em vinho. Dei-lhe meu sangue.
E veio o homem. O homem sábio — o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:
— Eu lhe dei a cruz.
Osvaldo Molles
1 de mar. de 2010
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes
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