29 de abr. de 2009



Cada um tem o seu ponto de vista
Encare a ilusão da sua ótica
Os olhos dizem sim
O olhar diz não

Na visão da macrostória toda guerra é igual
A visão do microscópio é o ópio do trivial
Na visão da macrostória nada gera um general
A visão do microscópio é o ópio do trivial
Sou cego
Não nego
Enxergo quando puder
Só vejo
Obscuro objeto
Desejo indireto
Será que você me entende?

Não se renda às evidências
Não se prenda à primeira impressão
O que não foi impresso
continua sendo escrito à mão

*Mal entendido/bem intencionado
*Mal informado/bem aventurado

visão de raio-x
o x dessa questão
é ver além da máscara
além do que é sabido, além do que é sentido
ver além da máscara





Ouvindo músicas do E.H

28 de abr. de 2009


sim não
mas pode ser que seja de repente
a minha frente bem na sua frente
e tudo muito rente, quente...
sente o drama:
é tudo assim tão envolvente, amor
é tudo assim tão de repente
tente agora
olho no olho
dente no dente
lentamente, é nessa hora a hora
que eu desejo o fim do fim de tudo

é o começo, o sol poente
a coisa fria e o fogo novamente
e tudo não mais que de repente
quente, quente, rente, sente


t.n

26 de abr. de 2009


O deserto é um modo de ser. De noite? Como é gélido esse lençol de ar que se crispa trêmulo de frio intensíssimo de uma intensidade quase insuportável. De dia o ar faísca. E há as miragens. Não passava de uma criação do sol na cabeça descoberta. O corpo tem pena do corpo. Eu sou uma miragem: de tanto querer ver-me eu me vejo.

O cacto é cheio de raiva com dedos todos retorcidos e é impossível acarinhá-lo: ele te odeia em cada espinho espetado porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva. Para suavizar essa minha vida que pinga lenta de gota em gota — tenho o poder da miragem. Mas, mesmo assim, me surpreendo como é que hoje (praticamente) já é maio, se ontem era fevereiro?

Cada minuto que vem é um milagre que não se repete.
Tem uma passagem estreita dentro de mim, tão estreita que suas paredes me lanham toda. Nem sempre tenho força para atravessar esse deserto sangrento, mesmo sabendo que, se me forçar a me doer toda entre as paredes, mesmo sabendo que desembocarei para a luz aberta.

Água e deserto, povoamento e ermo, fartura e carência, medo e desafio, surpresa e a antigüidade, o requinte e a rudeza. O vento como companhia. Cubro-me com a melancolia suave, e balanço-me daqui para lá, daqui para lá, daqui para lá. É. É assim mesmo.


c

25 de abr. de 2009



Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara.


*Composiçao de Lenine, "Paciência"

24 de abr. de 2009




O paciente entra no consultório e diz ao médico:

- Doutor, dói quando levanto o braço.

O Médico responde, simples e calmamente

- Então, não levante o braço.

22 de abr. de 2009



Eu sinto a minha aura vermelha e altamente faiscante. Minha aura é ver­melha vibrante. Meu rosto é um objeto tão visível que tenho ver­gonha. O olhar ganha então um tão terrível mistério que parece um vórtice de abismo. Tenho sobrancelhas que pergun­tam sem parar mas não insistem. Meus olhos são verdes tão escuros que se confundem com o negro. Em foto­grafia desse rosto de que eu vos falo com certa sole­nidade os olhos se negam a ser verdes: fotografada sai uma cara estranha de olhos pretos e levemente orientais.
Minha estupidez essencial no entanto quer fremir de luz, quer se nimbar de espírito. Minha estupidez que é um bloco de granito.
A cor púrpura é abismai e não tem fundo
Fico olhando e me aprofundando no sem-fim do coágulo velho como quando tento perfurar com os olhos uma densa matéria.


c

20 de abr. de 2009



Sentou-se diante do papel vazio e escreveu: comer — olhar as frutas da feira — ver cara de gente — ter amor — ter ódio — ter o que não se sabe e sentir um sofrimento intolerável — esperar o amado com impaciência — — fazer café — olhar os objetos — ouvir música — mãos dadas — irritação — ter razão — não ter razão e sucumbir ao outro que reivindica — ser perdoada da vaidade de viver — ser mulher — dignificar-se — rir do absurdo de minha condição — não ter escolha — ter escolha — adormecer — mas de amor de corpo não falarei.

Depois dessa lista ela continuava a não saber quem ela era, mas sabia o número indefinido de coisas que podia fazer.

E sabia que era uma feroz entre os ferozes seres humanos, nós, os macacos de nós mesmos.

cl

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