24 de jan. de 2009


De tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

Paulo Leminski


16 de jan. de 2009

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

CL.

14 de jan. de 2009

Eu queria poder entender melhor sobre a ansiedade.

Não sei bem se é um mal, se é apenas uma demonstração de importância demasiada, só sei que a inquietação que ela me traz transforma-se em algo totalmente irritante. Hoje eu realmente estou cansada, o tédio me trouxe aquela sensação de sono interminável.


12 de jan. de 2009

Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mais perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios.

(...) como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.

Clarice L.

Cantinho da Neurose: É, apesar das neuras, eu adoro a vida.

5 de jan. de 2009

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar

Clarice Lispector


Cantinho da neurose: Não, não andei chorando, mas..depois que li esse texto, quando penso em chorar, penso duas vezes, mas nem sempre é possível pensar antes.


30 de dez. de 2008



"Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar."

Clarice Lispector


Cantinho da Neurose: Ah, nem vou reclamar..Feliz 2009!

8 de dez. de 2008

O ano está nas ultimas linhas e geralmente ficamos reflexivos, fazendo um grande balanço do que vivenciamos e o que não vivenciamos..porém tudo com saldos positivos.
Estou a ponto de chegar a uma idade que sempre tive em mente que era o divisor de águas na minha vida. O engraçado é que, quando criança..participei de uma dinâmica, em que a professora pediu para escrevermos como nos veríamos (na época), com 10 anos a frente e que escondêssemos de nós mesmo a carta e só abríssemos quando tivessem passados os 10 anos.

Bom, os 10 anos passaram e escondi tão bem escondido que nunca mais encontrei. Mas minha memória escrita é muito forte e lembro-me de algumas coisas. Várias delas se realizaram, o que me faz crer que realmente é preciso acreditar com muita força nos desejos e sonhos e claro, uma pitada de sorte e fé. (mas isso varia de pessoa pra pessoa e em que ela acredita).

O fato é que muitas coisas mudaram. Outras não.

Mudanças, mudanças...sempre espero por elas, mas as vezes não as sinto. O bom mesmo é se olhar no espelho e encarar que certas características estão intrínsecas à nossa essência, ou como chamam cotidianamente: os defeitos. Foi neles que me peguei pensando diariamente, tentando achar uma “solução”. Existe solução para defeitos?
O que são os defeitos afinal? Se você começa tentar solucionar é possível que você perca um pouco de sua essência? Ou se tornara alguém melhor? Mas para tornar-se melhor não seria mais apropriado acentuar suas qualidades?
São muitas perguntas, paradoxos, e nesse mundo de perguntas repetidas resolvi não me perder e sim me acalmar.

O bom mesmo é vivenciar cada dúvida e quem sabe achar algumas respostas. Longe mim achar todas elas, senão, qual seria a graça de chegar o fim do ano e não ter nada pra refletir? Não, sou instintivamente questionadora, reflexiva. As respostas naturalmente aparecem quando eu já não estiver buscando nenhuma dessas, mas novas respostas.

Cantinho da neurose: mas já existe aquela velha frase.."Pensar enlouquece"..

Pensaram por aqui

 

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