20 de nov de 2009

O ritmo paragráfico tem sido mal recebido, e, em parte, compreende-se porquê. No caso de Whitman, a incompreensão — que em todo o caso não foi grande, e com certeza não foi geral — explica-se pela novidade, não só do próprio ritmo (aliás pressentido por vários, como Blake, (...), mas da matéria, pois foi Whitman o primeiro que teve o que depois se veio a chamar sensibilidade futurista — e cantou coisas que se consideravam pouco poéticas, quando é certo que só o prosaico é que é pouco poético, e o prosaico não está nas coisas mas em nós. Whitman, porém, desorientou porque apresentou duas novidades juntas. O mesmo ahurissement produzi eu com a minha Ode Triunfal, no Orpheu 1, visto que, embora escrita perto de setenta anos depois da primeira edição das Leaves of Grass, aqui ninguém sabia sequer da existência de Whitman, como não sabem em geral da própria existência das coisas.

Mas no caso dos decadentes e simbolistas franceses, a incompreensão do ritmo paragráfico, e a aversão a ele, teve outra origem. Os decadentes franceses usaram um ritmo irregular e sem rima para dizer asneiras: o conteúdo matou o continente. Compreende-se que o infeliz que tomou o conhecimento do ritmo irregular através das imbecilidades de Maeterlinck, nas Serres Chaudes, do delírio idiota de René Ghil, das assonâncias sem sentido de Gustave Kahn, identificasse aquela ausência de fundo com a ausência de ritmo, nem sempre existente, pois, por exemplo, Khan tem ritmos realmente impressionantes.

Isso, porém, nada tinha com o ritmo. Mallarmé, que escrevia em versos rigorosamente «clássicos», tinha a mesma nebulosidade de sentido, compelindo o leitor a decifrar charadas sem conceito ao mesmo tempo que procurava senti-las.

O ritmo paragráfico, quando realmente se obtém, varia com os seus práticos. Largo, complexo, curioso misto de ritmos de verso e de prosa, em Whitman; curto, hirto, dogmático, prosaico sem prosa, poético sem quase poesia, no mestre Caeiro; pitoresco vindo parar à incrível idiotia de Marinetti, cuja banalidade mental lhe não permitia inserir qualquer ideia no ritmo irregular, porque lhe não permitia inseri-la em coisa nenhuma e lhe chamou «futurismo», como se a expressão «futurismo» contivesse qualquer sentido compreensível. «Futurista» é só toda a obra que dura; e por isso os disparates de Marinetti são o que há de menos futurista.

Tomemos um exemplo, simples e breve, em Caeiro:

Leve, leve, muito leve, (...)


Álvaro de Campos

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