21 de abr de 2010

Deixo ao cego e ao surdo

A alma com fronteiras,

Que eu quero sentir tudo

De todas as maneiras.

Do alto de ter consciência

Contemplo a terra e o céu,

Olho-os com inocência...

Nada que vejo é meu.

Mas vejo tão atento

Tão neles me disperso

Que cada pensamento

Me torna já diverso.

E como são estilhaços

Do ser, as coisas dispersas

Quebro a alma em pedaços

E em pessoas diversas.

E se a própria alma vejo

Com outro olhar,

Pergunto se há ensejo

De por isto a julgar.

Ah, tanto como a terra

E o mar e o vasto céu.

Quem se crê próprio erra,

Sou vário e não sou meu.

Se as coisas são estilhaços

Do saber do universo,

Seja eu os meus pedaços,

Impreciso e diverso.

Se quanto sinto é alheio

E de mim se sente,

Como é que a alma veio

A acabar-se em ente?

Assim eu me acomodo

Com o que Deus criou,

Deixo teu diverso modo

Diversos modos sou.

Assim a Deus imito,

Que quando fez o que é

Tirou-lhe o infinito

E a unidade até.


Fernando Pessoa

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